segunda-feira, 21 de abril de 2014

Das nuvens e da morte

A felicidade parece estar sempre tão mais longe, a paz. Igual as nuvens brancas... acima das nuvens cinzas, como almas tão mais leves ou tão mais pesadas quanto carregarem medos e dores neste plano de fundo azul que é a existência.

Vasto painel cheio de imagens que nunca ficam, que sempre mutam e umas nas outras se transmutam, de almas que sempre se vão. Por entre as quais a morte parece uma entidade tão minúscula.

A morte sempre voa em círculos, como se estivesse indecisa ou como se não fosse comigo ou contigo. Insignificante o bastante para que nos assombre ao percebermos, de muito mais de perto, o quão grande são as suas asas e negras; a foice do bico que corta a carne podre é a jóia que coroa e se coroa em meio a sua cara horrenda.

Os medos e as dores acabam em morte, porque são vida. E diante do peso das nuvens que oprimem raros são os homens que seus sentimentos reprimem, que com chuva não se exprimem ao mesmo tempo em que um nos outros e uns contra os outros se espremem; fugindo da sua própria chuva, ao mesmo tempo uns dos outros sendo razão e abrigo dos próprios traumas e pavores.

A chuva os homens aflige. Persegue, atormenta e açoita. Tormentas que os arrastas em torrentes loucas até o frio do leito e os encurralam, com as costas contra a parede da noite. Noite que em suas trevas tudo encerra e diante da qual o coração, parece, a sua razão de ser encerra. Porque diante do noturno o homem se cala e contempla, e se reconhece; silencia os batimentos tamanho o medo diante da furiosa dança que é caos lamurioso do vento. Contudo não há dor no coração das trevas.

O coração pulsa no dia seguinte. Um dia após o outro. Como se que se de si tudo expulsa. Diante de si e acima o movimento das nuvens sendo uma fuga em repulsa, entre as almas do mundo vendo assonância em vez de rimas. Porque uma vez passada a tempestade tudo se desfaz... Não só as trevas, mas até as nuvens brancas, como se para tudo esquecer, tal uma alma que antes de reencarnar teve de esquecer o que soube das suas vidas passadas.

Hoje só o que parece restar é a plenitude do azul. A magnitude do vazio. Sob a qual uma ou outra nuvem que tenha restado da treva da última noite, contrariando a própria alvura, nada é além da sombra de um braço sinistro que ao longe parece agarrar os soberbos montes.

21 de abril de 2014 - 09h 31min
Olinda - Pernambuco - Brasil

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sábado, 8 de março de 2014

Playlist N. 1 - Dia Internacional da Mulher

Boa tarde! ((: E aí, tudo tranquilo?

Dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, e, sem mais delongas, trago aqui para vocês  uma ou outra música. Músicas ora dedicada alguma mulher, ora sobre alguma mulher, ora que tenha o nome de uma mulher em seu título, de algumas bandas que eu costumo ouvir e que tenham me vindo à mente no momento. Então... É isso, espero que gostem desta breve lista, não muito específica e procurando ser diversa em si. Espero que curtam o som.

E, para começar, a música que escuto este momento e que me deu essa ideia: Kayla, do super grupo de rock Flying Colors. O Flying, cujo (único, por enquanto,) álbum auto-intitulado dá a parecer que os integrantes estão nisto há anos, na verdade, é recente, de 2012. É um álbum que pelas faixas soa desde como Beatles até uma pegada mais progressiva (e que mais fascina quem vos escreve): excelente, sem medo um dos melhores lançamentos de rock daquele ano, e um som para todos os gostos.


Creek Mary's Blood, ou Riacho do Sangue de Maria, da quase lendária banda finlandesa de Symphonic Heavy Metal Nightwish, ao meu ver, é uma música um pouco peculiar na primeira era da discografia da banda. Sobretudo no que diz respeito a sua atmosfera tanto geral (no tema) quanto na sonoridade da introdução da música. Do aclamado álbum Once (2005), música na qual se traz a voz de quem seria uma vítima das campanhas de genocídios contra os índios nativos norte-americanos. Maria, na voz de (quem parece ser a eterna musa dos fãs da banda) Tarja Turunen. Composição magistral, como esperado de Thuomas.

Para não dizerem que não haverá participação nacional na lista, eu hoje estive ouvindo Chico Buarque. E... o peso deste nome lhes fala por si só. Ou deveria. Bem como a composição dispensa mais longos comentários: os fatos falam por si só, feito jogam pedra na Geni e o Zepelim.


Da banda canadense The Agonist, com seu primeiro álbum lançado em 2004 e ao qual não pertence a música em questão, The Escape. Esta faixa, tal qual todas as músicas da banda, está MUITO longe de ser amistosa ou somente o que parece, a começar pela personagem que a traz nesta lista: Creatice. Apesar da caracterização feminina, como sendo mulher, Creatice nada menos é que a Natureza. Ou a Criação. A música também sendo uma crítica ao gênio humano e a sua genialidade, numa interpretação minha ela também traz a tona a ideia da arte como uma característica ou capacidade divina: a de criar. E falando em criar, o homem sendo filho da Terra, toda mãe é mulher ;) 
Ah! Antes que escutem a música, uma curiosidade para o seu assombro ou fascínio (meu caso): as duas vozes são da mesma vocalista, Alissa White-Gluz. E... a propósito: The Agonist ainda irá render aqui no blog; aguardem!

Vermilion Part 1 & 2: talvez sejam duas músicas distintas, talvez uma a continuação da outra feito sugerido pelos títulos, ou talvez complementem-se entre si; dois dentre os maiores sucessos da banda do estado de de IOWA (também título de um de seus álbuns, brutal na razão como pessoa), Slipknot. Corey Taylor, vocalista da banda e compositor das músicas, diz que elas são sobre um momento de ruptura do indivíduo seguido daquele em que você se vê tendo de apanhar os próprios pedaços. Sentindo culpa por ter passado por isso, talvez. Ou seja: ainda que nas letras haja diferenças sutis, a primeira parte é bem diferente da segunda sonoramente; a primeira intensa e envolvente, a segunda cativante e embalsamadora. Sob uma perspectiva neurótica possivelmente suicida, tudo por uma mulher, concentrando-se o tom pesado porém melancólico do álbum The Subliminal Verses (2003).


E, fechando a (play)lista, uma música que jamais poderia ficar de fora: Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Relatos de um enfermo

Bom dia, jovens! (:
E então, minha primeira postagem aqui na Alice, e estou meio adoentado. Então façamos jus a (minha) situação: um relato meu, para nos (me) conhecermos melhor (?)

Espero que gostem.

Seguia, um bolo de carne cozinhando dentro de um saco feito de couro, pele, que, caso sangrasse dentro desse caldeirão de pirexia, nada seria se não eu mesmo, a mandíbula aberta num grito mudo, choramingando para que o vento lufado às lenhas da infecção não me alcançassem com seus álgidos gládios. E não pela primeira vez eu ia, com ela, àquele leito, contudo antes a celebrar o quanto éramos saudáveis - os solavancos todos pelo caminho, cada um deles, um a um, empurrando, apressando o meu juízo já manco a lugar nenhum... À ideia de que a qualquer momento os ossos da minha caixa craniana irão todos se desencaixarem um dos outros, como um corpo estelar que já ultrapassara a nitiscência, sob o colapso pirogênico do hipotámolo em seu centro.

Meus olhos ardem. Súbito a minha visão é turva. Rebelou-se, num movimento de revolução, o humor vítreo em correntes de convecção? Estas lágrimas são de prostaglandinas?

E enquanto me dissolvia, pois é o que acontece conosco, eu percebi: a febre é algo que te induz a morrer sozinho.

Por mais que tu queiras ter os entes queridos ao teu lado, qualquer coisa além da sua inútil presença se torna algo insuportável: o frio infernal que tu sentes, o frio de quando se sente a vida esvair do corpo, clama por um fim! e essa necessidade, desejo, tal ao espírito pequeno à terra prende à carne a enfermidade, e ali a encerra numa agonia que se julga ser à eternidade.


Contudo a pena é sempre muito justa: pedes pelo abraço daquele que te vê definhando e partilha a tua dor, contudo certas coisas dentre as que há de mal no homem, divididas, se multiplicam: a febre é um mal grande o bastante para se sentir sozinho, não é tolerado afeto, nem complacência, onde um fútil abraço não tarda em tornar o frio em quentura irritante.  Somente um pouco de água e comida parca, isto é o bastante preso em grilhões de músculos rijos cuja a menor das forças se torna um imensurável esforço. Não há o que fazer, a única disposição sentida é aquela para se deitar e esperar... Definhar e dissolver-se nesta febre que, eu percebi, é algo que te induz a morrer sozinho.

.ADLF

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

The Wolf Among Us Episode 1

TITULO: The Wolf Among Us Episode 1
GÊNERO: Aventura
DESENVOLVEDORA: Telltale Games
SUPORTE: 1 Jogador
LANÇAMENTO: 11/10/2013
MÍDIA: Digital
PLATAFORMA: PC


   Baseado na serie de hqs "Fables" da DC Comics, The Wolf Among Us é mais uma entrada da Telltale Games no mercado de jogos. Vindo ganhando espaço no mercado com seus adventures, a Telltale se consolidou definitivamente e atraiu a atenção da mídia apos o estrondoso sucesso feito por The Walking Dead Season One o que consequentemente gerou grandes expectativas para sua próxima serie. The Wolf Among Us segue a mesma mecânica utilizada em outros jogos da Telltale porem de forma mais aperfeiçoada. Pequenos detalhes e bugs encontrados na engine anterior foram corrigidos para criar uma experiencia de jogo ainda mais grandiosa.



   Bigby Wolf, também conhecido como "O Lobo Mau" é agora o xerife da cidade das fabulas localizada em Nova York. Caso não conheça a HQ, toda a historia segue o seguinte plano de fundo: No inicio todos os reinos dos contos de fadas onde as fabulas moravam existiam em um plano diferente do nosso e todos viviam em paz (ou ao menos tentavam), porem um novo inimigo chamado de "Adversário" surgiu misteriosamente e dominou reino apos reino obrigando todas as fabulas a fugirem procurando exílio. Sem um lugar para ficar, tentando iniciar uma nova vida as fabulas fundam uma comunidade em Nova York chamada de "Cidade das Fabulas" e comandada pelo Rei Cole. Como um marco do inicio da nova vida, todos os crimes passados foram perdoados e todos tiveram oportunidades iguais de recomeço, o que em teoria parece ótimo mas na pratica não funcionou tão bem assim. Só poderiam viver na Cidade das Fabulas aqueles com aparência humana ou com dinheiro suficiente para parar por um feitiço chamado "Glamour" que alem de ser caro tem uma duração muito curta. Todos os que não cumpriam tais requisitos foram enviados para um local afastado chamado de "Fazenda" onde ficam fora dos olhares mundanos (como as fabulas chamam os

humanos). É claro que vez ou outra alguma fabula acaba escapando e decide se aventurar pela cidade, ou problemas variados acabam perturbando a paz e é nestes casos que o Xerife Bigby entra em ação.

   A historia de The Wolf Among Us por si só desperta a curiosidade pelo tema que abrange. Ver os personagens que fizeram parte da nossa infância (e da infância de inúmeros dos nossos antepassados) estilizados, modernos e vivendo em meio a sociedade atual é uma enorme quebra de paradigma na nossa mente e algo incrivelmente divertido de se ver. Cada uma das fabulas tentou da sua própria forma se integrar a sociedade, seja no modo de vestir ou de agir, a trabalhar na mesma e a construir uma nova vida que infelizmente não funcionou completamente para todos. Podemos ver desde princesas divorciadas, prostituição e assassinos de aluguel disfarçados entre os mundanos, o que comprova o fato de nem todos terem se dado bem no exílio. Para Bigby essa é uma oportunidade de recomeço e apesar de manter uma rivalidade com seus antigos inimigos tenta apagar a alcunha de lobo mau pela qual era conhecido antes. Aos poucos no decorrer do jogo, trabalhando ao lado da vice prefeita Branca de Neve, Bigby conquista a confiança e a ajuda das fabulas para resolver o mistério no qual a trama gira. Desde o momento em que iniciamos um novo jogo somos deslumbrados com a qualidade gráfica estilizada e as cores fortes empregadas na construção dos cenários que dão um efeito único ao mundo de Wolf Among Us.

É possível ver perfeitamente o quanto a Telltale conseguiu aprimorar sua engine e sua técnica de cellshading apos seu trabalho em The Walking Dead e sem duvidas esse é um enorme porto positivo para o jogo.


   Nos primeiros momentos somos jogados na rotina de Bigby como o xerife badass do mundo das fabulas. O Senhor Sapo faz uma queixa sobre seu vizinho do andar superior ter bebido demais e estar passando da linha. Ao chegar ao recinto nos deparamos com um velho conhecido do lobo, o Lenhador, que espancava uma garota. Interferindo na briga, Bigby enfrenta o lenhador em um combate onde ambos trocam farpas de acontecimentos passados e toda a cena serve como um tutorial ao sistema de ação e combate do jogo que é extremamente mais fluido e responsivo que o de The Walking Dead, ponto positivo para a Telltale que demonstra aprender com os próprios erros. Apos o combate frenético, alguns golpes de machado e uma queda do segundo andar o jogo começa a explicar conceitos sobre a historia para os iniciantes no mundo de Fable. Percebemos logo que é extremamente difícil matar uma fabula e que ela se recupera mais rápido que o normal, fato que torna o acontecimento seguinte na historia ainda mais estranho.


   Em meio a introdução de novos personagens como a Bela (que demonstra perfeitamente como as fabulas se adaptaram ao estilo humano de se vestir e viver) e a Fera (que parece não estar nem um pouco satisfeito com isso) e Colin, o mais novo dos três porquinhos que apesar de frequentemente lembrar Bigby que a casa de palha não caiu sozinha parece manter um bom relacionamento com o mesmo chegando a servir de terapeuta em algumas cenas. Nesse ponto somos introduzidos ao primeiro mistério do jogo, o assassinato de uma famula já conhecida pelos jogadores. Encarnando mais uma vez o papel de xerife de Bigby, aprendemos a usar os dotes de investigação do lobo farejador ao melhor estilo Sherlok Holmes e iniciamos uma empreitada para caçar o culpado.
Aliando-se a Branca de Neve procuramos provas e investigamos suspeitos ao longo do caso onde somos introduzidos a novos acontecimentos e novos personagens que ajudam a dar forma ao mundo construído pela HQ e pela Telltale. É interessante reparar nas expressões e emoções dos personagens que foram muito bem construídas e ajudam a dar um clima ainda maior a historia, sendo possível descobrir quando alguém esta mentindo somente ao ver seu rosto ou saber quando uma pessoa esta sentindo medo/nervosa.

   Nos surpreendendo com as revelações do enredo bem construído, os gráficos extremamente bem trabalhados e os controles fluidos, Telltale mais uma vez cria uma ótima experiencia de imersão no mundo dos jogos que sem duvida nenhuma vale a pena ser jogada e apreciada diversas vezes de forma a explorar todo o potencial construído no sistema de diálogos dinâmicos, que alias, foi aprimorado se comparado a The Walking Dead e agora conta com opções mais variadas e novas consequências.  O primeiro capitulo de The Wolf Among Us demonstra que veio para ser uma serie de peso e firmar ainda mais o nome Telltale no mercado.



-A.J.-

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

The 39 Clues: O Labirinto dos Ossos


TITULO: The 39 Clues: O Labirinto dos Ossos
AUTOR: Rick Riordan
GÊNERO: Aventura
EDITORA: Atica

SINOPSE: Imagine se você descobrisse que faz parte de uma família de personalidades que mudaram a história. E imagine se, no minuto seguinte, você tivesse que escolher entre herdar um milhão de dólares ou a primeira de 39 pistas para encontrar o maior tesouro do mundo. Essa é a decisão que os órfãos Amy e Dan Cahill devem tomar em apenas cinco minutos. Os irmãos queimam seus cheques e se lançam na busca das 39 pistas. O que eles nem imaginam é que seus maiores inimigos serão os próprios Cahill, uma família dividida em clãs e capazes de qualquer trapaça para chegar ao tesouro.


   Com a sinopse acima somos apresentados ao mundo dos Cahill e a saga "The 39 Clues" que é composta por uma série de livros, jogos e cartões publicados no exterior pela editora Scholastic e no Brasil pela Editora Atica. Vamos nos ater aqui a série de livros que é composta por 10 volumes com a peculiaridade de cada um ser escrito por um autor diferente sendo o primeiro, do qual essa resenha se trata, escrito por Rick Riordan que já tem um nome feito na área de livros de aventura e infanto-juvenis com as sagas "Percy Jackson e os Olimpianos" e "Os heróis do Olimpo".

   Quando ouvi falar sobre The 39 Clues pela primeira vez a saga ainda estava em seus primórdios e uma tradução para o português era um sonho. Confesso que não dei muita atenção na época e o que li sobre a mesma não me motivou a encarar a leitura em outro idioma mas agora, alguns anos depois e já com toda a saga traduzida e lançada em território nacional (ou seja, minhas desculpas para ignorar a leitura acabaram) finalmente acabo de ler o primeiro volume, "O Labirinto dos Ossos".

   Acho que é comum esperarmos grandes leituras de Autores já consagrados e quando dei uma nova chance as 39 Pistas o que esperava era uma leitura ao nível de Rick Riordan, esperava uma história envolvente e grandiosa e digo que em partes isso realmente aconteceu. Dan e Amy Cahill são dois órfãos pobres vindos de uma família extremamente rica e poderosa, a família Cahill que através dos tempos ajudou a moldar a história do nosso mundo. Pense em um nome famoso e importante. Pensou? Ele provavelmente é um Cahill. São com essas palavras que Grace Cahill, a avo das crianças descreve a família, e falando em Grace, toda a história tem início com sua morte e a consequente divisão da herança milionária que ela possuia. Grace em seu testamento convoca um grupo seleto de Cahills (alguns dos quais nem mesmo carregam o sobrenome da família ou nem tem ideia da grandiosidade da mesma) e faz a eles uma oferta: Cada um tem em mãos um comprovante bancário no valor de um milhão de dólares e esse dinheiro é deles caso saiam pela porta do salão e recusem o desafio que ela propõe, mas se aceitarem o desafio e queimarem o comprovante abrindo mão do dinheiro isso pode garantir a eles um prêmio inimaginável que daria um grande poder ao vencedor. Somente uma equipe pode chegar ao final e tudo começa com uma única pista, uma das 39 pistas escondidas pelo mundo.

   Esse é o plano de fundo das aventuras de Amy e Dan, respectivamente 14 e 11 anos, que são os protagonistas da aventura. Seus pais morreram quando eram pequenos e desde então estão aos "cuidados" de uma tia, irmã de Grace, e Se você está se perguntando o porquê das aspas a resposta é simple: Amy e Dan moram sozinhos em um apartamento simples e sem muito dinheiro enquanto a Tia mora do outro lado da cidade em um apartamento de luxo, e se isso não bastasse para "cuidados" adquirir um significado diferente do comum nesse caso, assim que as crianças abrem mão de sua herança milionária (na qual a tia estava interessada) ela os abandona para adoção. Desde as primeiras páginas podemos notar que Amy e Dan foram personagens bem construídos, cada um tendo uma personalidade própria e pensamentos próprios e até mesmo a rivalidadeXamizade entre os irmãos é demonstrada e seja por mérito de Riordan ou pelos idealizadores da historia isso é algo que ajuda a dar vida e apego aos dois, entretanto apesar dos elogios eu diria que ambas as crianças se comportam de uma forma infantil ao extremo agindo como se tivessem uma idade muito menor do que tem. Não é necessariamente um ponto negativo ou um problema mas isso pode irritar alguns leitores ao longo da história.

   Falando em personalidade, todos os Cahill participante da busca demonstram ser bastante peculiares e excêntricos. Ricos em sua maioria, passam mais tempo tentando roubar informações uns dos outros do que realmente tentando achar o próprio caminho. Passando por crianças mimadas a uma família militar e chegando a uma estrela de televisão, todos demonstram clara despreocupação quanto as regras e as leis não sendo poucas as vezes em que ocorrem tentativas de homicídio ou algum outro tipo de agressão perigosa que apesar de demonstrar o risco envolto no mistério das 39 pistas tem sua gravidade atenuada pela forma cômica na qual Riordan desenvolve a história.

   Divididos em quatro clãs, O Ekatherina que usa como símbolo um dragão amarelo, O Janus que tem como símbolo o lobo verde, os Lucian representados pelo caduceu e os Tomas com seu urso azul, cada um possuindo suas próprias características e bases secretas dignas dos filmes de James Bond (e alias, os quatro clãs e seus brasões lembraram vocês de algum outro lugar que também usa esse sistema? acho que é impossível não lembrar.) os Cahill demonstram que não estão ali para brigar e a rivalidade entre os clãs data de tempos antigos. Além dos quatro clãs anteriores, um quinto clã misterioso chamado Madrigal é apresentado na história como sendo perigoso e um inimigo dos outros tendo como objetivo impedir a descoberta das 39 pistas.

   Quanto a história em si, a todo momento em que eu lia os livros de Dan Brown me vinham a mente e logo percebi que a mecânica de funcionamento das histórias eram bem parecidas. Duas pessoas procurando e seguindo pistas enquanto outro(s) grupo(s) de pessoas tenta impedir que isso aconteça e querem chegar ao objetivo antes dos protagonistas. É claro que a história é direcionada a um público diferente e deixa de fora todo o simbolismo, as pesquisas históricas e a filosofia empregada nas obras de Brown. Sendo uma história imersiva e com personagens bem definidos e marcantes ela é o suficiente para prender o leitor do início ao fim do livro porem peca em alguns pontos tão simples que acabam fazendo com que eu me pergunte como um autor já consagrado como Riordan cometeu tais erros. A todo momento sentimos que as coisas estão se desenvolvendo rápido demais, que a história está passando em uma velocidade maior que deveria e até mesmo os acontecimentos nas catacumbas parisienses (um grande complexo de tuneis recobertos por ossos humanos) que são responsáveis pelo título “O Labirinto dos Ossos” parece não durar nem 10 páginas, o que aliás é outro ponto negativo a se levar em conta. A magnitude das cavernas subterrâneas, a escuridão e a facilidade com que uma pessoa pode se perder nelas parecem ter sido ignoradas por Riordan já que as crianças entram, acham o que querem e saem de lá com uma facilidade incrível (em minha época a palavra labirinto tinha um significado diferente do apresentado no livro), e se tudo isso ainda não bastasse, a todo momento temos a ligeira sensação de que tudo é muito mecânico, sentimento acentuado pelo final completamente aberto e abrupto que nos deixa com o pensamento de "espera, meu livro veio faltando páginas."

   Refletindo mais um pouco nesse assunto e na singularidade da série 39 Clues eu me pergunto se o responsável pela história do primeiro livro realmente é Rick Riordan ou se existe alguma outra mente por trás de tudo e o autor só é responsável por reescrever um roteiro pre escrito de forma mais estilizada com toques pessoais. Depois de lançar best-seller atrás de best-seller e mais de 10 livros no topo da coluna do New York Times é quase impensável ver falhas como essas sendo cometidas por Riordan e se você pensa que esses foram os piores pontos identificados se prepare pois ainda tenho uma última crítica a fazer: Nellie Gomez, a baba, ou melhor, a "Au Pair" (como eles gostam de se referir a ela) de Amy e Dan. Um personagem que eu não citei até agora mas que aparece logo nas primeiras páginas e acompanha as crianças ao longo de toda a história. "Qual o problema com ela?" você deve estar se perguntando. Bem, sendo quase uma das protagonistas do enredo e assumindo esse papel nas ultimas páginas, Nellie é o personagem mais mal desenvolvido de todos. Sua personalidade superficial e seus pensamentos parecem ser completamente artificiais e fica evidente que a ideia da personagem foi concebida somente para poder justificar e tornar possível as aventuras das crianças pelo globo. É quase como se durante os estágios finais de planejamento da história alguém houvesse pensado "Ei, são crianças, não podem viajar ao redor do mundo sozinhos!" e então criado a personagem para tapar os buracos do enredo. Além de baba, ela acaba se tornando também suporte financeiro com a desculpa de "tenho um pouco de credito em meu cartão ainda". Nellie, uma personagem que a princípio parecia não ter ligação emocional nenhuma com os irmãos Cahill não somente aceita fugir com eles para outro pais como os ajuda a escapar do serviço social e entra em diversos problemas para os ajudar na busca. Não sei como a personagem vai se desenvolver nos próximos livros mas realmente espero que outro autor seja capaz de dar a ela uma profundidade e importância maior do que a que Riordan deu.

   The 39 Clues é uma saga com potencial e grandeza incríveis que apesar dos pontos negativos tem tudo para cair na graça popular e se tornar uma das próximas sagas de sucesso ao redor do mundo. Como um livro isolado eu diria que “O Labirinto dos Ossos” deixou a desejar em diversos pontos se levarmos em conta o autor da obra porem ainda é uma excelente leitura para se descontrair. Apesar da idade infanto-juvenil, é uma obra que pode ser apreciada por qualquer idade e com toda certeza tem tudo para virar um ótimo filme.


-A.J.-